sábado, 7 de junho de 2014

O Baú Secreto da Vovó

Quando eu era menina e sentia medo, no lugar de chorar, ficava com raiva.

Na noite em que descobri o baú de minha avó, eu estava em Santos. Trovejava muito. Apavorada, comecei a gritar que odiava o mar. Foi quando minha avó me chamou.

— Minha neta, você sabia que eu tenho um baú cheio de segredos?

— Como assim? Onde?

— Lá no fundo da garagem.

Pronto. Nada como a curiosidade para espantar o medo. Na garagem, vovó o abriu e retirou de dentro dele uma espécie de régua:

— Você sabe o que é isso?

— Uma régua esquisita — respondi.

— Não, isso é uma palmatória. Quem errasse na escola levava uma batida na palma da mão.

— Não acredito! E por que a senhora guardou esse treco?

— Pra lembrar que a gente precisa ser mais forte do que as injustiças. Olhe... meu dedal preferido. Foi com ele que eu costurei essa roupa — e ela me mostrou um vestidinho com uma espécie de short por baixo.

— Você jogava tênis, vovó?

— Não, isso é um maiô!

— Você nadava de vestido?

— Sim, e era considerada atrevida. Mas foi assim que conquistei seu avô.

— Nadando de roupa?

— Eu vinha de uma família pobre. Seu avô, não. Ele lia, gostava de dançar.

— E de nadar também?

— Sim, e por isso fiz esse maiozinho. Corri até a praia de chapéu. Seu avô estava tomando sol. Fingi que tinha perdido o chapéu no mar. Ele era um cavalheiro e veio ajudar. O chapéu foi parar no fundo. Apostamos uma corrida para ver quem o apanhava. Ele gostou da minha ousadia.

— Foi assim que vocês começaram a namorar?

— E logo me casei. Guardei o dedal pra lembrar que a gente precisa tecer a felicidade, e o maiô, porque um pouco de coragem não faz mal a ninguém. Olhe essa caixinha de música. Seu avô me deu quando você nasceu. Não é linda?

Vovó mostrou para mim outros objetos e assim fui descobrindo que se não fosse o mar, que eu temia, não haveria o encontro de meus avós e que viver é saber perder o medo de tudo o que a gente nunca espera e nunca vai conseguir controlar.

Poema de Katia Canton

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